Transa•Marieta convida Ailton Krenak

Em conversa com Isa Grinspum Ferraz, Marco Altberg, Suely Rolnik e Abilio Guerra

21.07.2020, terça-feira
18h30 – 20h30

Marieta Virtual via Zoom, ao vivo no Facebook

________
Transa Marieta

Como resposta à pandemia da Covid-19, o projeto Marieta lançou em abril de 2020 o “Transa Marieta”, programa de entrevistas com personalidades da arte e da cultura contemporânea, com o propósito de discutir uma trajetória de vida e uma percepção específica do mundo atual. Desde então, o coletivo paulista e diversos convidados conversaram com o escritor Milton Hatoum, o músico Arrigo Barnabé, a arquiteta Erminia Maricato e o gestor cultural Danilo Santos de Miranda. Nesse mês de julho, com a pandemia em curso e sem adoção de medidas de contenção pelo governo federal, Isa Grinspum Ferraz, Marco Altberg, Suely Rolnik e Abilio Guerra entrevistam o líder indígena Ailton Krenak.

_______
Apresentação da conversa
por Abilio Guerra

A cultura indígena vivencia hoje em nosso país um agravamento de suas condições de vida, com as investidas cada vez mais violentas de invasores de suas terras para plantio e garimpo, com o dizimamento sistemático do seu meio ambiente – florestas queimadas, rios enxovalhados, lavoura de subsistência envenenada pelos agrotóxicos das fazendas que avançam sobre seus territórios. Com a pandemia avançando nas tribos de diversas etnias, nunca os indígenas brasileiros estiveram tão perto da extinção. Estamos diante de um projeto oficial de genocídio.

Mas se os indígenas sofrem com os venenos da civilização branca, sua cultura de oferece de forma generosa como sucedâneo para os males contemporâneos da sociedade de consumo. As práticas e conhecimentos das diversas etnias que habitam o país podem sustentar uma visão transformadora da sociedade humana, como foi visto e salientado por Eduardo Viveiros de Castro, um de nossos maiores intelectuais. Seu amigo Ailton Krenak, ativista indígena que sempre priorizou a aproximação das agendas das diversas nações que habitam nosso território muito antes da chegada dos europeus, é um dos porta-vozes mais autorizados para nos apresentar uma visão de mundo alternativa, que prioriza o bem comum, a vida comunitária e o respeito extremo aos outros seres – vivos e inorgânicos, como as montanhas e rios – que compartilham a mãe Terra com os humanos.

Muito ativo desde quando se apresentou em 1987 na comissão preparatória para a Assembleia Constituinte na Comissão, Ailton Krenak se afasta da postura romântica, que cultiva uma visão paralisante do paraíso perdido, mas apresenta uma promessa de futuro, uma aposta que ele vai existir, apesar dos riscos das atividades de agressão constante ao meio ambiente e aos modos de vida não integrados – caiçaras, índios, quilombolas... 

O pensamento de Krenak, embebida dos valores culturais do seu povo, aponta a possibilidade de adotarmos práticas e modelos mais inclusivos, de baixo impacto no sistema ecológico, que valorizem a vida e fujam da armadilha presente na narrativa hegemônica do desenvolvimento econômico ilimitado.

Ailton Krenak propõe uma discussão de como evitar a extinção (e, se não for viável, retardar ao máximo o processo de esgotamento dos recursos naturais e viver a melhor das vidas possíveis). 

Em seu livro recente, sugere uma alegoria maravilhosa, onde os humanos inventam magníficos artefatos multicoloridos para retardar a queda no precipício existencial: 

“Por que nos causa desconforto a sensação de estarmos caindo? A gente não faz outra coisa nos últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair. Então por que estamos grilados agora com a queda? Vamos aproveitar toda a nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos. Vamos pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o cosmos onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos”

 

(Ideias para adiar o fim do mundo, Companhia das Letras, 2019, p. 30).
_____

Para pautar a discussão, a conversa contará com as presenças dos convidados Isa Grinspum Ferraz, Marco Altberg e Suely Rolnik, com condução de Abilio Guerra.

Para quem quiser mandar sugestões de perguntas e pautas de discussão para nossa conversa com Ailton, aqui tem um formulário público, pronto para ser preenchido: https://forms.gle/CdWcCcophQhTxQkQ9 

O encontro virtual acontecerá pela plataforma Zoom e será transmitido ao vivo no Facebook (www.facebook.com/projetomarieta), no dia 21 de julho de 2020, terça-feira, a partir das 18h30.
______
Sobre os participantes

>> Ailton Krenak (Vale do Rio Doce, 1953), ativista indígena dos direitos humanos, pertence à etnia Krenak. Em 1987, no contexto das discussões da Assembleia Constituinte, liderou a luta pelos princípios inscritos na Constituição Federal do Brasil. Fundou e dirige o Núcleo de Cultura Indígena; na década de 1990, criou o Festival de Danças e Culturas Indígenas na Serra do Cipó, Minas Gerais. Como jornalista, apresentou a série Índios no Brasil (TV Educativa, 1998) e série Tarú Andé com temática indígena (TV Canal Futura, 2007). Em janeiro de 2016, foi distinguido com o diploma de “Professor Honoris Causa” pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF. Autor de textos e artigos publicados em coletâneas no Brasil e exterior, e do livro Ideias para adiar o fim do mundo (2019). Recebeu diversos prêmios, como o Prêmio Internacional de Direitos Humanos para a América Latina Letellier Moffite, da Fundação Letellier, em Washington DC (1987), o Prêmio Onassis – Homem e Sociedade, da Fundação Aristóteles Onassis, em Atenas, Grécia (1989), o Premio Nacional de Direitos Humanos – Brasil, do Conselho Nacional de Direitos Humanos (2005), e a Comenda da Ordem do Mérito Cultural do Brasil (2008) e a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural do Brasil, ambos da Presidência da República (2015).

>> Isa Grinspum Ferraz, bacharel em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo e doutoranda na FAU USP, é roteirista, documentarista e curadora de exposições e museus multimídia. Dirigiu a premiada série O Povo Brasileiro, as séries Intérpretes do Brasil, O valor do amanhã, Galáxias e A cidade no Brasil. Realizou os médias-metragens Lina Bo Bardi, O milagre do pão e A cidade não para. Coordenou a criação de conteúdos e roteiros do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Foi curadora da Estação Natureza, da USP, e do Cais do Sertão, em Recife. Idealizou o Museu do Pampa e o Museu das Missões, no Rio Grande do Sul. Atualmente, é curadora na recriação do Museu da Língua Portuguesa e da renovação dos museus do Instituto Butantan, em São Paulo. Foi colaboradora de Lina Bo Bardi e, por 12 anos, de Darcy Ribeiro.

>> Marco Altberg, roteirista, diretor e produtor de cinema, TV e novas mídias, é sócio diretor da Indiana Produções e participa ativamente de entidades da área de cinema e televisão (Associação Brasileira de Documentaristas, Associação Brasileira de Cineastas, Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica e BRAVI – ABPITV). Em cinema participou como diretor e/ou produtor dos filmes Prova de fogo (1980), Aventuras de um paraíba (1982), Fonte da saudade (1986, prêmios de música e de som no Festival de Gramado; e de direção e de roteiro no Festival de Brasília), Os Trapalhões – o mistério de Robin Hood (1990), Sombras de Julho (1994) e Panair do Brasil (2007), dentre outros. Para a televisão, realizou séries de ficção e programas TV Futura, Canal Brasil, Canal Multishow e TV Brasil (onde “Revista do Cinema Brasileiro” foi exibido durante 22 anos), além de especiais de conteúdo cultural, artístico, educativo e ambiental. É diretor do documentário Ailton Krenak e o sonho da pedra (2017).

>> Suely Rolnik é psicanalista. Graduada em Sociologia e Filosofia pela Sorbonne (Paris VIII, 1973 e 1975), mestre em Ciências Humanas Clínicas pela Sorbonne (Paris VII, 1978) e doutora em Psicologia Social (PUC-SP, 1987), é professora titular da PUC-SP (onde leciona desde 1979 e onde fundou o Núcleo de Estudos da Subjetividade no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica). Atuou como professora, pesquisadora, jurada e curadora em universidades e instituições importantes na Colômbia, Espanha, França, Cuba, Holanda, Estados Unidos e Brasil. Autora de inúmeros ensaios e livros publicados em vários países, com várias edições, como Micropolítica – cartografias do desejo (com Félix Guattari, 1986), Cartografia sentimental – transformações contemporâneas do desejo (1989), A hora da micropolítica (2016), Antropofagia Zumbi (2012), e Esferas da insurreição – notas para uma vida não cafetinada (2018). Em 2019 participou com Ailton Krenak do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

>> Abilio Guerra é arquiteto (PUC-Campinas, 1982), mestre e doutor em História (IFCH Unicamp, 1989 e 2002), professor da FAU Mackenzie. Membro fundador do Marieta (com Caio Guerra, Giovanni Pirelli, Helena Guerra e Silvana Romano Santos), é editor da Romano Guerra Editora e do Portal Vitruvius ao lado de Silvana Romano. É coautor do livro Rino Levi – arquitetura e cidade (com Renato Anelli e Nelson Kon, 2001), autor de O primitivismo em Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Raul Bopp (2010), Arquitetura brasileira: viver na floresta (2011) e Arquitetura e natureza (2017), e organizador de Textos fundamentais sobre historia da arquitetura moderna brasileira (2010), Brasil Arquitetura – Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz (com Marcos Grinspun Ferraz e Silvana Romano Santos) e diversos outros livros.