audição #06: cinco anos de rap, 2010-2015

11.18.2016

cinco anos de rap, 2010 - 2015

por wshws

 

(uma breve premissa: esta é uma analise básica, pensada para alguém que tenha saído de um coma anteontem e que por esta razão precise de uma panorâmica sobre os últimos anos de produção de rap e hip-hop).

 

os últimos 5 anos foram marcados pela afirmação do rap como gênero de maior transversalidade dentro da cena musical internacional.

 

entrou em todos os cantos, misturando-se em escala global com todos os outros gêneros, transformando-os (e transformando-se, diriam os puristas). já não é raro encontrar uma participação de um rapper no disco de uma cantora de musica country, ou ter um verso de rap em uma faixa rock tocada nos piores festivais do mundo.

 

mesmo assim, o rap se encontra em ótima saúde. o pesadelo apocalíptico de nas– que em 2006 dizia “hip hop is dead” – não se transformou em realidade; a oferta hoje é extremamente variada. ao domínio dos artistas mais mainstream, se acompanha um florescer de jovens talentos que, graças a internet, aumentaram seu publico. tem rap para todos os gostos, é só procurar.

 

do ponto de vista das sonoridades, a principal novidade é uma definitiva virada eletrônica, com a afirmação do sub-gênero trap – a  junção ideal entre rap e a dubstep. nascido nas periferias inquietas de atlanta e chicago o trap invadiu os clubes, alimentado por uma multidão de “bedroom producers” e rappers adolescentes prontos a desfrutar do palco digital.

as redes sociais estabeleceram o sucesso de muitos desses artistas autodidatas, que tem acesso a todas as ferramentas necessárias para produzir, divulgar e monetizar seus trabalhos.

 

chegamos ao ponto: de 2010 até hoje, podemos individuar diferentes categorias significativas de artistas rap:

 

1) os grandes

 

a primeira década dos anos 2000 foram de propriedade de jay-z. desde 2010 o trono de “king of rap” foi prepotentemente assumido por kanye west, que não parece estar intencionado a larga-lo. este novo reinado se consagrou com o disco feito em parceria entre os dois, com o título eloquente de “watch the throne”.

 

se o ultimo álbum de mr. beyoncé – “magna carta holy grail” – passou batido, kanye foi muito mais eficaz e com a publicação de “my beautiful dark twisted fantasy” (2010) e “yeezus” (2013) criou dois álbuns imprescindíveis para o hip hop – e para a musica em geral – se transformando em um verdadeiro ícone. sem contar que seu selo good music lançou vários artistas que estão conquistando boa parte do mercado, como pusha t, big sean ou o novinho travis scott.

 

enquanto isso, dois outros nomes cresceram e podem sentar na mesa do rei. o primeiro é o canadense drake, que desde o momento em que chegou teve grande impacto sobre o mundo musical e um sucesso transversal, construído com os discos “take care” (2011) e “nothing was the same” (2013). drake com a sua produtora ovo sound está estimulando o crescimento de inúmeros artistas canadenses, focando em um som muito reconhecível: um crossover entre r&b, rap e música eletrônica, abrindo o caminho para artistas hoje de fama mundial como the weeknd.

 

em paralelo, cresce e se fortalece a fama daquele que, na minha opinião, é o maior rapper contemporâneo: kendrick lamar.

 

depois do pequeno sucesso do primeiro disco “section 80” (2011), kendrick projetou-se na cena internacional graças ao disco “good kid, m.a.a.d city” (2012), com textos extremamente complexos e intensos, e grande atenção para as questões sociais e politicas da nossa contemporaneidade. com o álbum “to pimp a butterfly” (2015), kendrick marcou um ponto crucial no mundo da música, conquistando um sucesso planetário e prêmios mainstream (vencedor de 6 grammys), muito raro para um disco de forte compromisso social.

 

2) os loucos

 

a categoria dos “loucos” sempre deu grande vitalidade ao mundo rap.

 

textos agressivos e diretos, personagens que não procuram esconder seus vícios e o desinteresse pela vida: droga, álcool e mulheres resolvem todos os problemas universais.

 

os artistas dessa categoria são muitos, decidi me concentrar nos 3 de maior sucesso.

a$ap rocky, “the pretty mothafucka” de harlem, que com os discos “long. live. asap” (2011) e “live. love. asap” (2013) conquistou um público impressionante, com um estilo de rap que foi copiado mundo afora. vale a pena mencionar as explosões musicais de rappers como schoolboy q, próximo da estética gangsta old school da califórnia, e danny brown, o mais politicamente incorreto, seja pelos textos, seja pelo comportamento “live fast, die young”, seguindo o exemplo do old dirty bastard (r.i.p.).

 

3) os pretendentes ao trono

 

dois rappers que estão tentando subir ao trono de kanye, kendrick e drake: j. cole e chance the rapper.

 

o primeiro teve um sucesso muito transversal: suas musicas são ouvidas igualmente por meninos negros das periferias das grandes cidades e por estudantes de geografia em faculdades importantes.

 

o segundo, graças ao mixtape “acid rap” (2013), se demonstrou um dos artistas mais originais de sua geração, com um estilo muito reconhecível, sempre aberto a contaminações e sem medo de se expor.

 

mesmo com essas peculiaridades, que nos levariam a pensar numa vontade deles de posicionamento dentro do nicho de puristas do rap, a postura desses artistas na divulgação de seus trabalhos, na constante atenção a aparecer nas mídias, mostram o desejo de um sucesso global: daí a definição de pretendentes ao trono.

 

4) os marginais

 

os marginais pertencem àquela categoria, ampla e variada, de artistas que não aparentam ter interesse em reconhecimento midiático e que circulam as margens do sistema contemporâneo.

 

a rapaziada da odd future, crew de músicos/artistas de los angeles liderada pelo poderoso entusiasmo de seu líder tyler, the creator e iluminada pelo talento de alguns de seus membros, como earl sweatshirt (importante citar o disco “earl” de 2010, composto com apenas 15 anos). a inteira crew, que se inspira na estética skater que hoje domina a moda de rua no mundo todo, tem uma postura irônica e impudente que se apoia sobre sonoridades sinistras e, as vezes, cacofônicas.

 

nessa categoria encontramos também artistas importantes da cena r&b como the internet e frank ocean, que com seu primeiro disco “channel orange” (2012) se afirmou como um dos artistas mais interessantes do panorama mundial.

 

vale a pena incluir o novíssimo joey bada$$, que faz do retorno ao rap anos 1990 a sua missão, com uma técnica impressionante e beats nostálgicos, exemplificados em seu mixtape “1999” (2012), composto aos 17 anos.

 

cito também os trabalhos de artistas mais underground, com sonoridades mais obscuras, que ficaram distantes dos ouvidos do “grande público”: “dour candy” (2012), lindíssimo disco do misterioso rapper de new york billy woods e “piñata” (2014) álbum colaborativo entre o rapper freddie gibbs e o lendário produtor californiano madlib, que cria um tapete sonoro único e fora do nosso tempo, sobre o qual o rapper recita versos crus, quase naïf: uma volta ao rap que as mães não gostariam que os filhos ouvissem.

 

completo este elenco rápido e essencial com alguns nomes de artistas que nos últimos anos apresentaram trabalhos relevantes, para quem quiser completar a pesquisa:

big k.r.i.t, black milk, blu, denzel curry, isaiah rashad, killer mike (e o seu projeto run the jewels com o rapper/produtor el-p), mick jenkins, young thug.

 

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